A via canônica indica o caminho seguro.

No laboratório alquímico e espagírico, os estudantes aprendem a realizar operações seguindo a via canônica. Esse conceito representa um caminho estabelecido e imutável, embora permita certa liberdade criativa ao praticante.

Apesar disso, a palavra “canônico” costuma gerar dúvidas, especialmente entre os iniciantes.

Fulcanelli, em seus estudos alquímicos, explica a origem do termo:

“A palavra ‘canônico’ vem do grego kanon, que foi emprestado do acadiano kanûn e significa ‘caniço’. Os arquitetos antigos usavam esse caniço como uma régua para medir. Na alquimia, o termo conserva esse sentido original: uma via canônica é uma forma de operar cujas medidas são conhecidas e aprovadas. Nem mais, nem menos.”

O Significado de Cânone e sua Relação com a Lei

Originalmente, os bispos utilizavam a palavra “cânone” para descrever decisões disciplinares nos concílios. Eles viam o cânone como uma orientação baseada na experiência espiritual, e não como uma imposição coercitiva.

Enquanto o termo latino lex remete a uma lei impositiva, o kanon grego refere-se a uma medida prática e útil. Traduzir “via canônica” como “standard way” (caminho padrão) seria mais adequado do que associá-la à ideia de uma “regra” no sentido estrito.

No laboratório, o alquimista é livre para experimentar e aprender com seus erros, explorando os limites do possível e do impossível. Substituir a noção de cânone pela de “proibido e permitido” limitaria a liberdade criativa essencial à alquimia.

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A Via Canônica como Medida Espiritual

A Torá, segundo interpretações de rabinos e Pais da Igreja, é um exemplo de via canônica. Não é uma imposição, mas uma orientação prática para o progresso espiritual.

Se Deus tivesse imposto uma lei externa e ameaçadora, como explicar a liberdade humana e a existência de falhas? Moisés, por exemplo, teria sobrevivido após ordenar um massacre logo após receber o mandamento “Não matarás”?

Assim, as leis da natureza e as medidas espirituais devem ser vistas como formas de distinguir o possível do impossível, e não como regras coercitivas.

Caminhos Antigos e a Liberdade de Escolha

Desde tempos remotos, os homens traçam caminhos para evitar se perder ou cair em armadilhas. No entanto, essa escolha é livre: ninguém é obrigado a seguir essas rotas.

No campo alquímico, a “via canônica” refere-se aos processos experimentados e documentados por gerações de hermetistas. Ainda que novos caminhos possam ser explorados, afastar-se das vias consagradas aumenta o risco de fracasso ou de desvios espirituais perigosos.

Escolhendo o Caminho com Sabedoria

Salomon Trismosin, "Splendor Solis". Supostamente Adepto e professor de Paracelso.

A disciplina pessoal é fundamental na alquimia, mas ela nasce do raciocínio, não da coação. Como disse Jean-Aurel Augurelle:

“Quanto aos outros, que consideraram antecipadamente, com base na experiência, o que no fim seria a maior das coisas buscadas por seu labor, eles preferiram passar pela senda estreita escolhida logo de começo, sem jamais se afastar da linha reta que corta caminhos transversais nem estacar antes da meta. Puderam assim obter alegremente, após um longo tempo, aquilo que esperavam."

Seguir a via canônica não é uma obrigação, mas uma escolha sensata para quem deseja realizar a Grande Obra. Embora os caminhos alternativos possam trazer aprendizado, eles raramente conduzem ao objetivo principal.

Regras da Arte e a Liberdade da Matéria

As regras da arte alquímica, baseadas na experiência dos antigos e na revelação divina, são práticas e servem para evitar acidentes. Assim como as leis de trânsito, elas aumentam a liberdade individual ao prevenir problemas.

Até a matéria possui sua liberdade, como reconhecido pelos físicos modernos no princípio da incerteza. Essa liberdade aumenta à medida que avançamos nos reinos da criação.

O Dom da Liberdade na Criação

No primeiro capítulo do Gênesis, Deus atua de três maneiras ao criar:

  1. Criar do nada (bara): usado apenas para Deus e indica o dom de ser livre.

  2. Nomear e distinguir: separa os elementos para que tomem forma.

  3. Abençoar a criação: um selo operativo que permite à humanidade crescer e multiplicar-se.

Essa bênção divina é o fundamento da Grande Obra, onde o alquimista, inspirado pelo Artista divino, exerce sua liberdade para transformar e criar.

💡 Recomendações

☉ Quem é Daniél Fidélis?

É orientador em diversas Formações em Alquimia e Esoterismo, entre outras áreas.

Dedica-se à Alquimia e ao Esoterismo desde a década de 90.

Em 29 de Maio de 2010, criou o nosso Instituto, dedicado à pesquisa e difusão do conhecimento Alquímico e Esotérico.

Trabalhou por 20 anos coordenando o tratamento físico-químico de efluentes industriais da Casa da Moeda do Brasil.

A partir de novembro de 2017, devido ao elevado número de alunos e ao tempo demandado à orientação, passou a se dedicar exclusivamente à Alquimia.

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