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Muitos Buscadores chegam à Espagiria com uma pergunta bem simples: o que diferencia, de fato, uma tintura espagírica de uma tintura comum?

A resposta começa pela maneira como o espagirista olha para a planta. Ele não a vê apenas como um conjunto de substâncias das quais se pode extrair alguma coisa, mas como um organismo completo, cujos princípios devem ser separados, purificados e, depois, novamente reunidos.

É justamente aí que o próprio nome Espagiria revela seu sentido. Paracelso empregou o termo Spagyria a partir de dois verbos gregos: spaō, separar, e ageírō, reunir. Em poucas palavras, esse é todo o percurso da Arte.

A fitoterapia convencional não realiza essa operação. Uma infusão, um decocto ou mesmo uma tintura fitoterápica extraem apenas parte daquilo que está presente no vegetal. O restante permanece no resíduo sólido e normalmente é descartado. Para o espagirista, porém, aquilo que parece não ter mais utilidade ainda contém algo precioso.

Neste artigo, percorro a escada que conduz da tintura mais simples até a Tintura Espagírica Canônica, mostrando o que cada degrau acrescenta e por que isso faz diferença.

Uma maceração não é toda a planta

A tintura simples é o nosso ponto de partida. A planta, seca ou fresca, é colocada em álcool de cereais e permanece em maceração durante dias ou semanas. Depois vem a filtragem, e o resultado é um líquido colorido, aromático e carregado de parte dos constituintes da planta.

Na linguagem espagírica, esse líquido contém boa parte do Enxofre, associado à fração oleosa e aromática, à alma do vegetal, e do Mercúrio, princípio volátil e espiritual, aqui veiculado pelo álcool. É uma preparação conhecida pela fitoterapia e possui seu próprio valor.

Mas alguma coisa ficou para trás.

Depois da filtragem, resta uma massa vegetal aparentemente esgotada, desanimada (sem a sua ânima). Para a prática fitoterápica comum, ela já cumpriu sua função. Para o espagirista, é justamente aí que se encontra aquilo que ainda precisa ser recuperado: o Sal, o corpo mineral da planta, que somente o trabalho com o fogo pode revelar.

Essa é uma das diferenças fundamentais entre as duas abordagens. A Espagiria busca trabalhar com a planta em sua totalidade, recuperando aquilo que a simples extração alcoólica não consegue incorporar.

Paracelso ensinava que a natureza nos oferece suas matérias ainda imperfeitas e que cabe à Arte conduzi-las a um estado mais elevado. Em linguagem alquímica, a planta contém seus três princípios filosóficos misturados a outras substâncias. O trabalho do espagirista consiste justamente em separar, purificar e reunir esses princípios.

É o solve et coagula aplicado ao reino vegetal.

Por isso, a tintura simples não deve ser desprezada. Ela é legítima, útil e representa um primeiro passo. Mas, sozinha, ainda não constitui uma preparação espagírica completa.

Os degraus que levam à Canônica

Entre a tintura simples e a espagírica canônica existem etapas intermediárias que acrescentam novas operações ao preparo. Conhecê-las ajuda a compreender como essa escalada acontece.

A Tintura da Lua de Fogo começa na Lua Nova e segue um procedimento em que o frasco é enterrado durante o ciclo lunar, submetendo a maceração à terra e ao ritmo dos astros. Aqui, o operador introduz o tempo, o ciclo lunar e as influências celestes como elementos da preparação. É um refinamento da tintura simples, mas o Sal purificado ainda não foi reintegrado. Contudo, o operador conta com a possibilidade de elaborar sua Tintura da Lua de Fogo com qualquer tipo das tinturas a seguir.

A Tintura Integral segue outro caminho. Em vez de colocar a planta inteira para macerar de uma única vez, folhas, flores, frutos, raízes e cascas podem ser trabalhados separadamente, respeitando as características próprias de cada parte. Depois, as tinturas são reunidas. O preparo ganha maior complexidade e busca representar melhor a totalidade do vegetal. Ainda assim, o Sal permanece ausente (mas pode ser feita uma tintura espagírica de cada parte da planta).

A passagem efetiva acontece quando o espagirista recolhe o resíduo sólido da maceração e o submete à incineração, à calcinação e à lixiviação.

É desse trabalho que surge o Sal Salis, o sal branco e solúvel purificado pelo fogo. Dentro da linguagem tradicional da Espagiria, ele conserva aquilo que alguns autores descrevem como as informações arquetípicas primitivas do vegetal. O material insolúvel que resta, o caput mortuum, é separado.

Quando o Sal Salis retorna ao líquido de onde havia sido separado, o Corpo mineral da planta é novamente unido aos demais princípios. Mas essa reintegração, por si só, ainda não completa a operação espagírica.

Para que o preparado possa ser chamado propriamente de tintura espagírica, ele deve passar também pela circulação espagírica, na qual o líquido permanece em recipiente fechado sob calor brando, evaporando, condensando e retornando continuamente sobre si mesmo. Segundo a concepção tradicional da Arte, essa operação promove uma união mais íntima entre os princípios anteriormente separados e purificados.

A Tintura Espagírica Canônica acrescenta uma exigência decisiva. Nela, o Mercúrio utilizado não é simplesmente um álcool de cereais adquirido para a maceração. O próprio espagirista deve produzir o álcool a partir da mesma espécie vegetal empregada na tintura.

Assim, se a preparação é feita com alecrim, por exemplo, o álcool que servirá de veículo também deve ser do alecrim, obtido por fermentação e destilação. O Mercúrio deixa, portanto, de ser um veículo externo e passa a proceder da própria matéria vegetal trabalhada.

Na preparação canônica, os três princípios procedem, tanto quanto possível, de uma mesma origem: o Enxofre extraído da planta, o Sal recuperado e purificado de seus resíduos e o Mercúrio obtido pela produção do álcool da própria espécie vegetal.

A diferença, portanto, é precisa. A presença do Sal Salis isoladamente não basta para definir uma tintura espagírica. É necessária também a circulação. Para alcançar o grau Canônico, soma-se a isso o uso do Mercúrio próprio da planta (mesmo que ele seja universal em todos os vegetais, pois ainda guarda uma memória específica).

A proposta da Arte não é simplesmente recompor aquilo que existia antes. Os princípios são separados, purificados e novamente reunidos por operações conscientes. A Tradição entende essa nova união como um estado mais perfeito da matéria vegetal.

O verdadeiro certificado está na Obra

Observe o que acontece em cada degrau dessa escada. Sempre existe uma operação concreta. Há maceração, separação, fogo, calcinação, purificação, reunião e circulação.

Nada disso se resolve apenas com teoria.

A Espagiria exige tempo, atenção, conhecimento e paciência. Exige também que o operador aprenda a olhar para aquilo que normalmente seria descartado e perguntar: o que ainda existe aqui?

É por isso que o resíduo vegetal possui tanta importância. Aquilo que parece morto contém a matéria a partir da qual o Sal será recuperado. E sem essa recuperação não existe a reunião completa dos três princípios.

Se a Espagiria despertou em você algo além da curiosidade, se existe o desejo de operar e não apenas de estudar, a Oficina de Alquimia Espagírica (aproveite por apenas R$97) ensina essas operações passo a passo, desde a destilação artesanal de óleos essenciais até a preparação de quintessências, seguindo a tradição espagírica.

Porque a Espagiria só começa a revelar sua verdadeira dimensão quando deixamos o livro por alguns instantes e colocamos as mãos na matéria.

Cada fogo aceso, cada cristal recuperado e cada gota destilada fazem parte da Obra.

E, de algum modo, enquanto a matéria é transformada, o próprio operador também começa a mudar.

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- Daniél Fidélis :: | Escola de Alquimia e Esoterismo

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