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A origem do Tarô é um daqueles assuntos que mais acumulam invenções. Egito faraônico, sacerdotes de Tebas, ciganos que teriam trazido o baralho do Oriente. Nenhuma dessas versões resiste a um arquivo.

As primeiras cartas de Tarô realmente documentadas aparecem na Itália do século XV, sob o nome de trionfi, dentro de um jogo praticado nas cortes. A leitura oculta surgiu trezentos anos depois, na França, e a leitura propriamente hermética se consolidou no século XIX.

Saber disso não tira o valor o Tarô. Amplia. Quem conhece a data de cada camada trabalha com o baralho sem depender de fantasias esquizotéricas.

Abordo aqui a história do Tarô em três momentos: as cartas que chegaram à Europa, os triunfos italianos que criaram o baralho, e o momento em que a corrente hermética o adotou. Cada afirmação vem com sua fonte, e o que é lenda será identificado como lenda.

As cartas que chegaram à Europa

As cartas de jogar não surgiram na Europa. Chegaram, e chegaram tarde. Antes da década de 1370 não existe registro europeu confiável de baralhos, o que já dificulta qualquer afirmação de ancestralidade egípcia direta.

A entrada se deu pelos portos do Mediterrâneo, a partir do mundo islâmico. O baralho mameluco conservado no Palácio de Topkapı, em Istambul, traz quatro naipes de taças, espadas, bastões e moedas. São os mesmos quatro que sobrevivem nos Arcanos Menores.

A documentação europeia surge de repente e em vários lugares ao mesmo tempo. Em 1377, o frade dominicano João de Rheinfelden descreve um jogo de cartas na Basileia. No mesmo período, cidades italianas passam a legislar sobre os naibi, nome de raiz árabe dado àquelas cartas.

Note o que ainda não existe. Não há trunfos, não há Arcanos Maiores, não há Louco, Imperatriz nem Roda da Fortuna. Há apenas quatro naipes e figuras de corte.

O Tarô tem, portanto, uma pré-história bem estabelecida. O que faltava para ele nascer seria acrescentado na Itália, por razões que o próprio Renascimento italiano explica.

Os triunfos da Itália renascentista

O documento mais antigo conhecido sobre um baralho de Tarô data de 16 de setembro de 1440. O notário Giusto Giusti d'Anghiari anotou em seu diário ter presenteado Sigismondo Pandolfo Malatesta, senhor de Rímini, com um baralho de naibi a trionfi mandado fazer em Florença, ao custo de quatro ducados e meio.

Dois anos depois, os livros de contas da família Este, em Ferrara, registram carte da trionfi. Esse era o registro mais antigo conhecido até 2012, quando o pesquisador Thierry Depaulis identificou a anotação de Giusti.

A ideia de triunfo vinha da cultura literária do período. Petrarca escreveu I Trionfi, poema em que figuras alegóricas se sucedem, cada uma vencendo a anterior, do Amor até a Eternidade. Quem observa a sequência dos Arcanos Maiores reconhece o mesmo desenho.

Os baralhos de luxo pintados para os Visconti e os Sforza, em Milão, atribuídos em boa parte a Bonifacio Bembo, são os exemplares mais antigos que chegaram até nós. Estão incompletos, e nenhum traz instrução oracular.

O nome tarocchi só aparece no início do século XVI. O padrão que se tornaria o Tarô de Marselha (meu preferido) foi fixado por fabricantes franceses e suíços, entre eles Jean Noblet e Nicolas Conver, cujo baralho de 1760 virou referência.

Durante três séculos o Tarô foi um jogo de vaza, jogado em cortes e tabernas. As imagens carregavam a alegoria cristã e humanista do Renascimento, e essa carga simbólica é real. O uso oracular sistemático ainda não aparece nos documentos.

Quando a corrente hermética adotou o Tarô

A virada ocorreu em Paris, em 1781. Antoine Court de Gébelin publicou o oitavo volume de Le Monde Primitif e afirmou que o baralho era o resto de um livro sagrado do Egito, o Livro de Thoth. Escrevia numa Europa fascinada pelo Egito e ainda incapaz de ler hieróglifos, coisa que Champollion só tornaria possível em 1822.

No mesmo volume, um ensaio do conde de Mellet fez duas coisas de longo alcance. Associou os vinte e dois trunfos às vinte e duas letras do alfabeto hebraico e descreveu um método de adivinhação. Está ali a primeira formulação escrita do Tarô oculto.

Jean-Baptiste Alliette, que assinava Etteilla, transformou a tese em ofício. Entre 1783 e 1785 publicou seus livros de adivinhação e, no fim da década, gravou o primeiro baralho concebido para uso oracular.

  • Coube a Alphonse Louis Constant, conhecido como Éliphas Lévi, dar arquitetura ao conjunto. Em Dogma e Ritual da Alta Magia, publicado entre 1854 e 1856, ele integrou os Arcanos ao corpo da Alta Magia e consolidou a correspondência proposta por Mellet. A leitura é dele, do século XIX.

Vieram depois Papus, com O Tarô dos Boêmios (1889), e Oswald Wirth, que redesenhou os Arcanos Maiores no mesmo ano sob orientação de Stanislas de Guaita. Em 1909, Arthur Edward Waite e Pamela Colman Smith ilustraram também os Menores, no baralho mais copiado do mundo.

O que a honestidade histórica devolve

Sustento duas verdades ao mesmo tempo. O baralho nasceu como jogo na Itália do século XV, e o Tarô Hermético é uma construção documentada dos ocultistas franceses do século XIX. Ambas têm datas, nomes e arquivos.

O que Lévi e seus sucessores fizeram tem valor próprio. Organizaram um sistema simbólico coerente, capaz de espelhar a Grande Obra e sustentar a meditação do Buscador. Esse trabalho se sustenta pela consistência interna, sem precisar de uma origem faraônica falsa.

Há ainda um ganho prático nessa clareza. Quando você sabe que a alegoria dos trunfos vem do imaginário renascentista, e que a camada oculta foi acrescentada entre 1781 e 1889, para de misturar leituras que fazem parte de séculos diferentes. Cada Arcano volta a ser interpretado com a voz de sua própria época.

Fica então o critério que aplico a todo tema da Tradição. Aceito o símbolo com reverência e a datação com rigor, sem pedir que um sustente o outro e sem fechar o coração e a mente para diferentes possibilidades. Pois, nem sempre a verdade está documentada.

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- Daniél Fidélis :: | Escola de Alquimia e Esoterismo

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